
Ontem eu encontrei meu inimigo, que tão de perto me segue. Eu, que às vezes penso não ter mais forças para lutar. Eu sei que, na verdade, foi ele quem me fez acreditar e agora essa idéia custa a sair da minha cabeça.
Quando você estiver nessas lutas não declaradas, onde o maior golpe que você pode dar é apenas resistir, dê corda para seu inimigo para que, quando ele menos esperar, você o surpreenda – surpreenda-se até, por que não? – com o ato mais impensado, impensado até mesmo por você.
Ontem eu fui pra luta, ciente de que todos os homens têm seus próprios inimigos, embora não pareça, porque é do homem o calar-se. Foi disso que arranquei forças: saber que todos estão sob constante ataque, a todo instante e que, por incrível que pareça, todos usam a mesma arma: o Silêncio.
Quando me dei conta disso e também dessa força misteriosa que insiste em nos humilhar, fazer com que beijemos o pó de nossa própria pele – pois é isso que é o pó – vi também a covardia. Pois é do homem usar a assonância da quietude em proveito próprio, mas, em contrapartida, desferir golpes mordazes contra seu semelhante. É aí que vemos o paradoxo: tantos homens brigando suas guerras fatais, urgentes, todos no auge de seus desesperos, como pés de milho agitados ao vento, mas que não fazem sequer um barulho; e quão absurdo é notar que estão fazendo tanto barulho, ao mesmo tempo, a fim de desmoralizarem seus irmãos de sentença, os quais lutam a mesma guerra, contra o mesmo inimigo, embora particular.
Ontem peguei meu inimigo e fiz dele minha força. Agarrei seu orgulho e bati, até sangrar, e quando sangrou enfim, bebi seu sangue. De meu inimigo bebi, enchi-me dele, para que eu fosse mais eu. Ele não esperava tal ato, nem eu mesmo, é verdade. Mas fiz e senti-me senhor de mim.
Quando ontem venci minha luta, supus que jamais veria meu inimigo de novo, achava-me vencedor e ao que vence há pouco a se ponderar.
Ontem, quando sobre nada ponderava, deitei minha cabeça no travesseiro, surpreso, ainda, de ter ido tão longe para derrocar meu algoz. Tão logo acordei, vi-me face a face com meu transgressor. Cheguei à conclusão de que ser homem é ter que matar seu inimigo todo dia, de preferência de manhã, para se ver livre o resto do dia. Mas a hora ninguém sabe, pois tudo à nossa volta liberta o que trancamos ontem, seja a nossa força, seja o nosso ser, nossa mente, nossas fadas...Sim, as fadas, são elas que os libertam, para que todo dia os matemos. Quer saber como matar seu inimigo todo dia? Encontre quantas fadas mais puder, desde de que sempre tenha uma certa. Porque a certa lhe trará sempre o seu inimigo e esse é seu dever matar; as outras que você arranjar, trarão outros inimigos, de outros homens, que você, matando, apenas se sentirá apto para matar o inimigo seu de todos os dias, todos os anos e todas as fases.
(Fernando Vieira – 23/12/2008).